Sobre a série
Lado a lado é uma série da coluna Entrelinhas do Consumo: a cada edição, duas notícias que parecem não ter relação ganham sentido quando lidas uma ao lado da outra. Nesta primeira, o tema é memória.
Sinal 1
Os descontinuados voltam
Em 28 de setembro de 2026, o propmark noticiou que o Boticário retomou a “Chefe dos Descontinuados”, plataforma criada para anunciar a volta de produtos que deixaram o portfólio da marca. Nesta nova fase, a revelação dos itens é precedida por conteúdos baseados em rumores, pedidos e especulações dos próprios consumidores nas redes sociais. A ação foi desenvolvida pela agência SoWhat.
A primeira movimentação teve a participação de Jhenny Keller, creator conhecida por publicar previsões em forma de quadros. Ela pintou uma tela com itens que gostaria de ver de volta ao portfólio e a enviou à “Chefe dos Descontinuados”. Na composição aparecem melancia, banana e chocolate, referências a ingredientes que já estiveram em produtos da marca. As pistas anteciparam os relançamentos. A ficha técnica publicada pelo Clube de Criação lista Egeo Melancia, Egeo Banana, Cuide-se Bem Melancia, Cuide-se Bem Chocolatudo, Cuide-se Bem Lavandinha e a linha Dream.

Os números divulgados pela empresa ajudam a medir a conversa. Segundo o Boticário, os primeiros conteúdos dessa fase passaram de 1 milhão de visualizações orgânicas e somaram mais de 4 mil comentários em pouco mais de 12 horas. O relançamento anterior da linha Dream registrou crescimento de 421% em volume vendido na comparação com outros lançamentos da categoria, e alcançou o maior volume de vendas de body splashes da história da marca.

“Os resultados que já tivemos com a retomada de produtos mostram que revisitar esse legado não significa olhar para trás, mas encontrar novas possibilidades”, afirmou Carolina Carrasco, diretora de branding e comunicação do Boticário, ao propmark.
Vale olhar também para o que aconteceu nos comentários. Em publicações sobre o caso, como a do perfil Publicitários Criativos no Instagram, a caixa de comentários virou uma lista pública de pedidos, com leitores citando outros perfumes que gostariam de reencontrar. A campanha pergunta, e a comunidade responde com a própria memória.
Sinal 2
A atenção como estratégia

Poucos dias antes, em 16 de setembro, a WGSN Brasil recebeu em São Paulo Andrea Bell, VP de Creative Intelligence da WGSN, para a apresentação exclusiva para a América Latina do estudo global The Sentient Consumer. O encontro, realizado na AYA Hub em parceria com a AYA e com realização da PONTE, reuniu executivos para discutir como a inteligência artificial generativa e a inteligência emocional devem transformar estratégias de marca e decisões de consumo até 2028.
Na véspera, Bell havia aberto o Latam Retail Show 2026 com a palestra “Despertar Sensorial”. Segundo a cobertura do iG, ela retomou uma frase do cientista Herbert Simon, de 1974 (“uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção”), e encerrou com uma tese: “A memória deixou de ser um subproduto, ela vai se tornar uma métrica de crescimento”. A recomendação às marcas foi que se projetem “para a lembrança, não para o alcance”.
Em publicação da WGSN Brasil sobre o estudo, uma frase de Bell resume o argumento: “As marcas não vão vencer exigindo mais atenção. Elas vão vencer protegendo a atenção do consumidor.”
Lado a lado
Um cheiro que volta + atenção protegida
Uma notícia fala de relançamento de perfumes; a outra, de comportamento do consumidor até 2028. Juntas, sugerem uma ideia simples: um cheiro guardado na memória talvez seja a forma mais econômica de atenção que existe. Não pede explicação, só reconhecimento.
Um lançamento precisa ser apresentado: o que é, para quem é, por que experimentar. Um produto que volta já chega com essa explicação feita, porque ela está na lembrança de quem usou. É o tipo de atenção que não precisa ser disputada a cada rolagem de tela, ela é recuperada.
O caso do Boticário mostra ainda um detalhe de formato. A marca não anunciou uma lista de produtos. Anunciou uma pergunta (quais são as pistas?) e deixou a comunidade responder, assim, a memória coletiva virou mecânica de campanha.

Síntese
Hipótese
A hipótese que fica: em beleza, o próximo diferencial pode morar menos no lançamento e mais no acervo, naquilo que a marca já plantou na memória das pessoas.
É uma possibilidade, não uma regra. Nem todo produto volta com a mesma força, e a nostalgia também cansa quando vira fórmula. Mas o raciocínio tem consequências práticas: conhecer o próprio acervo (o que saiu de linha, por que saiu, quem ainda pede) passa a ser trabalho de estratégia, e não só de arquivo.
A conversa continua
Qual produto descontinuado você traria de volta, e o que ele diz sobre a marca que o criou?
Lado a lado · 01
A matéria em 6 telas
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Fontes & referências
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GKPB
Boticário atende o desejo dos consumidores e relança produtos descontinuados ↗Yuri Teixeira · 28/09/2026
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Créditos de imagem
Fotos oficiais do encontro The Sentient Consumer: WGSN Brasil · @WGSNBRASIL · @PONTE.AG.
Peças editoriais: Lado a lado · 01.